domingo, 29 de dezembro de 2013

O enigma borgiano da leitura

 

Maria Zaíra Turchi e Eugênia Fraietta


http://editorarevistas.mackenzie.br/index.php/tl/article/viewFile/4467/4076





 
 
 

É sabido do folclore borgiano que, quando o conto "A aproximação a Almotásim"

surgiu em 1940, na revista Sur, foi tomado realmente como


uma resenha de um romance de autor indiano. O fato, além de confirmar

a determinação da leitura na definição do gênero do texto, conforme sempre

afirmou Borges, ilustra a figura do leitor como elemento previsto na ficção

borgiana, como elemento inserido na busca do narrador-leitor-comentador que

resenha o fictício romance de Mir Bahadur, A aproximação a Almotásim.


O leitor nesse conto acompanha o caminho percorrido por um outro leitor, o

que teve de alguma forma acesso ao romance de Bahadur e tece uma resenha

crítica apresentando desde a citação sumária da fortuna crítica do romance e

seu percurso editorial até o resumo do enredo, antevendo o argumento geral,

comentando criticamente e estabelecendo novos precursores. O narrador aparece

no conto não como um mero contador de histórias, mas sobretudo como um

questionador, um inquiridor e um comentador de leituras feitas, ou seja, um

duplo do leitor:

Então Bahadur publicou uma edição ilustrada que intitulou The conversation

with the man called Al-Um’tásin e que subtitulou magnificamente: A game

with shifting mirrors (um jogo com espelhos que se desalocam). [...] Tenho-a à

vista; não consegui obter a primeira, que pressinto muito superior (BORGES,



1989a, p. 22).
 
Durante a leitura, o leitor acaba inserido em outra busca, além da busca do

narrador-comentador pelo sentido do romance: a busca do personagem do romance

comentado pelo homem chamado Almotásim. O leitor, então, projeta-se

dupla e simultaneamente no conto: ele é mais um leitor na infinita cadeia de

leitores borgianos, que buscam o conhecimento mediante a leitura e o comentário,

e é o leitor de um romance, que lhe chega já resumido e bastante mediado,

no qual vai acompanhar a peregrinação de um jovem estudante de direito em

busca de Almotásim.

De um lado, o leitor é previsto na estrutura do conto e existe como uma de

suas personagens; de outro, cabe ao leitor a existência do conto, uma vez que

sua forma depende de sua leitura. O texto de Borges assume verdadeiramente a

qualidade de um Proteu, podendo tomar diversas formas, uma vez que a leitura

pode ser um ato criador, não menos que a escritura. Os leitores são seus elementos

e seus criadores, são lidos e leem, mas também empreendem na leitura

uma busca em vários sentidos que os leva de indagadores a indagados.

A trajetória do protagonista "visível" do romance de Bahadur, A aproximação

a Almotásim, está resumida, e de certa forma explicada, na segunda parte do


conto, quando o narrador, após citar a fortuna crítica e o percurso editorial do

romance, descreve o enredo da obra que resenha. A história contada já chega ao

leitor bastante alterada; além de passar pelo narrador, que suprime e ressalta

passagens segundo seu critério de avaliação do que é ou não pertinente ou decisivo

para sua análise, ele ainda decide por essa seleção a partir de uma edição

do romance, ilustrada e posterior a uma primeira que ele julga superior: "Autoriza-

me a isso um apêndice, que resume a diferença fundamental entre a versão

primitiva de 1932 e a de 1934. Antes de examiná-la – e de discuti-la – convém

que eu indique rapidamente o curso geral da obra" (BORGES, 1989a, p. 22).

No cenário percorrido pelo estudante, desde o motim entre mulçumanos e

hindus até o encontro com Almotásim, vários elementos simbólicos destacam-se

na elaboração de um espaço e tempo maravilhosos, próprios do conto como

forma simples na qual a irrealidade é tomada como real. O conto, por sua vez,

"enfrenta abertamente o universo e o absorve, o universo conserva, pelo contrário,

apesar dessa transformação, sua mobilidade, sua generalidade e – o que lhe

dá a característica de ser novo de cada vez – sua pluralidade" (JOLLES, 1976,


p. 194-195).

Esse universo será suporte para a busca do jovem estudante pelo homem

chamado Almotásim, o que, segundo Davi Arrigucci Jr. (1987), constitui uma

espécie de travessia de formação por meio dos mistérios do mundo até a manifestação

do sentido.

O jovem, antes de principiar sua busca, perdendo-se na Índia, tem suas certezas

ideológico-religiosas abaladas, quando se vê capaz de matar, mas não consegue

avaliar quem tem razão, mulçumano ou idólatra, e conclui que um ladrão

muito odiado deve ser merecedor de algum tipo de admiração. Seu critério moral

fica evidentemente relativizado e é essa transformação inicial que lhe permite

perceber, em um homem detestável que encontra em seu caminho, "uma ternura,

uma exaltação, um silêncio" (BORGES, 1989a, p. 24). Por meio desse homem

vil e incapaz de emanações virtuosas, o estudante intui um interlocutor mais

complexo e elevado e deduz que ali estariam apenas seus reflexos. Decide, então,

dar início à busca do homem de quem procede essa claridade: "Já o argumento

geral se entrevê: a busca insaciável de uma alma através dos tênues reflexos

que esta deixou em outras" (BORGES, 1989a, p. 24).


2

 
Neste ponto, abre-se uma das buscas do conto que já fora pontuada por alguns

detalhes "aflitivos"; melhor dizendo, detalhes de instigantes múltiplos significados,

como quando o narrador nos apresenta o protagonista: "Seu protagonista

visível – nunca se nos diz seu nome – é estudante de direito em Bombaim"

(BORGES, 1989a, p. 22). Enquanto sua visibilidade não significa propriamente

identidade, uma vez que seu nome nunca é revelado, o fato de o narrador tê-lo

qualificado como "visível" nos remete imediatamente à possibilidade da existência

de um protagonista invisível, possibilidade que é, sem hesitação, preenchida

por Almotásim, personagem nomeado desde o início, porém nunca visto.

O trecho "À medida que os homens interrogados conheceram mais de perto

Almotásim, sua porção divina é maior, mas se acredita que são simples espelhos"

(BORGES, 1989a, p. 24) prepara o leitor, de certa forma, para o desfecho

da história de Bahadur, e "conhecer de perto" pressupõe visibilidade e concretude;

no entanto, o que se tem de Almotásim continua sendo imagens refletidas nas

pessoas que creem nele.

O narrador arrisca a ideia que lhe parece mais "estimulante" acerca da identidade

de Almotásim: "a conjectura de que também o Todo-Poderoso está em

busca de Alguém, e esse Alguém de Alguém superior (ou simplesmente imprescindível

e igual) e assim até o Fim – ou melhor, o Sem-Fim – do Tempo, ou em

forma cíclica" (BORGES, 1989a, p. 25-26). Ainda segundo o narrador, na edição

que lhe serve de fonte, o autor lhe atribui o emblema de Deus, o que significaria

uma perda do seu caráter alegórico. Com efeito, a descrição do local onde o estudante

enfim encontra Almotásim nos traz uma imagem divina:

Ao cabo dos anos, o estudante chega a uma galeria "em cujo fundo há uma

porta e uma esteira barata com muitas contas e um resplendor". O estudante

bate

palmas uma e duas vezes e pergunta por Almotásim. Uma voz de homem –

a incrível voz de Almotásim – convida-o a passar. O estudante abre a cortina e
 
 
avança. Nesse ponto o romance acaba (BORGES, 1989a, p. 25).


Na reunião de todos os rastros ou indícios, Almotásim pode ser qualquer um

e todos ao mesmo tempo, livreiro persa, santo, cristo ou o homem que o estudante

pensa haver matado. A magnificação de Almotásim o conduz a nada ser,

e ser tudo. A divinização de Almotásim o coloca em qualquer lugar, em todos os

lugares, em nenhum lugar e até mesmo naquele lugar onde se deu início a busca

do estudante. Cada nova versão de Almotásim exclui e acrescenta elementos

a sua identidade e redefine-o sem completá-lo. O reconhecimento completo de

uma possível e verdadeira identidade de Almotásim não se dá, não se declara

quem, o que ou como realmente seja Almotásim. A busca do estudante parece

ter fim quando ele avança na direção da incrível voz; no entanto, o sentido completo

dessa busca, a decifração do enigma de Almotásim não nos é revelada. A

pergunta acerca de quem seja Almotásim é formulada durante todo o conto e a

resposta se dispersa e se multiplica na última cena, já que o que resta e está

reservado ao leitor – até como provocação – é conjecturar a respeito desse encontro

recolhendo e reinterpretando – infinitamente – pistas deixadas ao longo

do relato que podem, inclusive, identificar buscado e buscador como na nota do

narrador. Aliás, esta última possibilidade adquire um significado bastante amplo

se pensarmos em outros encontros borgianos em que o encontro com o outro

é, na verdade, o encontro consigo mesmo1. A solução, nessa perspectiva, parece


estar na ambiguidade: o eu é o outro, não sendo absolutamente. Mas as respostas

são somente conjecturas.

O que cada leitor fará com essa cena é de natureza ilimitada e imprevisível;

entretanto, um sentido talvez permaneça, aquele que está exatamente, segundo

Borges (1989b, p. 12, tradução nossa), na "iminência de uma revelação, que não

se produz"2e que "é, quiçá, o fato estético".




3

 
A outra busca é aquela empreendida pelo narrador, ou melhor, por um leitor

anterior aos leitores atuais, que comenta o romance de Bahadur e que também

realiza uma tarefa de decifração – a decifração do enigma da leitura.

O narrador debruça-se sobre o livro e sobre o enigma que a sua leitura lhe

oferece e essa conduta decifradora torna-se a aventura da ficção borgiana. Na

verdade, nada acontece em termos de ação romanesca; a peregrinação do jovem

estudante nos é relatada por um narrador que está seguro e imobilizado pela

leitura em sua biblioteca. A ação romanesca, digamos, externa, tradicional não

existe; em seu lugar temos a aventura do leitor, a aventura intelectual da leitura

do romance de Bahadur e sua decifração, a ação intelectual, "parada". A leitura

aparece como o equivalente da ação e "assim acaba por preencher o lugar vazio

da busca propriamente dita, deslocando o romanesco para o espaço mental e

imaginário da decifração" (ARRIGUCCI JR., 1987, p. 230).

Assim que o narrador finaliza o resumo do romance de Bahadur com o encontro

enigmático do estudante com Almotásim, ele encaminha-se para a última

parte do conto, em que tenta a análise crítica propriamente dita do romance, o

que se dá em torno da construção da imagem de Almotásim. Segundo o narrador,

Bahadur falhou, pois Almotásim não passaria de um fantasma, de uma

desordem de superlativos insípidos carecendo de caráter real. Na versão do romance

de 1934, as falhas teriam aumentado: Almotásim é o emblema de Deus,

como já foi dito, e alguns pormenores sobre seus rastros insinuam um Deus

unitário que se acomoda às desigualdades humanas. O narrador prefere a interpretação

da etimologia do nome Almotásim que significa "o procurador de am-

paro" (BORGES, 1989a, p. 26). Em seguida, faz um comentário a respeito dos

percursores do romance e chega a estabelecer "com toda humildade" (BORGES,

1989, p. 27) um percursor, Isaac Luria, cuja ideia era de que "o espírito de um

antepassado ou mestre pode entrar na alma de um infeliz, para confortá-lo ou

instrui-lo" (BORGES, 1989, p. 27). Seu último comentário não deixa de ficar

também na "iminência de uma revelação". Em nota de rodapé, ele apresenta um

precursor anteriormente citado – "Colóquio dos pássaros": "essas e outras ambíguas

analogias podem significar a identidade do buscado e do buscador; também

podem significar que este influi naquele. Outro capítulo insinua que Almotásin

é o "hindu" que o estudante crê ter matado" (BORGES, 1989a, p. 27). Em

mais uma possibilidade de esclarecimento, o que se vê é o desdobramento de

mistérios na sugestão da identidade do buscado e do buscador e na insinuação

perturbadora de que o buscador tenha, sem saber, aniquilado o buscado.

À primeira vista, esse comentário crítico parece, conforme observou Genette

(1972, p. 121) acerca da produção crítica de Borges, "possuído por um estranho

demônio de operações associativas". No entanto, toda a atividade realizada pelo

narrador-comentador tece uma infinita rede de relações entre obras e ecos de

obras em outras tantas obras no espaço sem fronteiras da leitura. Neste conto,

como a exemplo da totalidade da obra de Borges, essa rede infinita de relações

é o resultado de "uma inabalável curiosidade intelectual, pressupondo uma

idêntica atitude inquisitiva diante dos livros e do universo" (ARRIGUCCI JR.,

1987, p. 229), da busca pelo conhecimento por meio da decifração da leitura

como um enigma de múltiplas respostas e soluções concomitantes.

Essa conduta narrativa, essa forma de enredar o conteúdo, de forjar a matéria

temática, enfim, de realizar o mythos tem raízes profundas na estrutura da


forma simples do mito sagrado de pergunta e resposta. No mito sagrado:

Uma resposta chega então ao interrogados; e essa resposta é de tal natureza

que não é possível formular outra pergunta; a pergunta anula-se no mesmo instante
 
 
em que é formulada; a resposta é decisiva. [...] O homem pede ao universo

e aos seus fenômenos que se lhe tornem conhecidos; recebe então uma resposta,

recebe-a como responso, isto é, em palavras que vêm ao encontro das suas.

O universo e seus fenômenos fazem-se conhecer (JOLLES, 1976, p. 87-88).


Já em Borges, essa estrutura dá origem a uma narrativa que, com efeito,

parte de uma pergunta – a busca pelo conhecimento, pela decifração do enigma

da leitura, pelo sentido dos livros – mas desemboca numa resposta multiplicada

que, ao que tudo indica, revitaliza a pergunta em vez de respondê-la e, consequentemente,

esvaziá-la, anulá-la. Borges não só está atento ao fato de que a

certeza esfacelaria o mito, como também ao despropósito do absoluto, do definitivo

no tempo e contexto de sua narrativa.

Mais uma vez o sentido que não se completa, a revelação que não se cumpre

e a resposta potencializada aparecem como o nó da leitura borgiana e, como

num moto-perpétuo; o mythos que é oriundo desse narrador-inquiridor, é, ao


mesmo tempo, aquele que lhe dá origem. A própria natureza do narrador aparece

potencializada em seu sisifismo.


4

 
Fica bem claro que realmente o resultado da leitura como origem da ficção é

uma demoníaca rede de associações. Assim como Almotásim tem sua imagem

dispersada e multiplicada durante toda a peregrinação do jovem estudante, mas

também isolada e una no momento enigmático do encontro, a literatura surge, a

partir da conduta do narrador, como o resultado da leitura. Ressurge alastrada e

multiplicada em incontáveis livros de histórias recontadas e recriadas, mas, ao

mesmo tempo, abarcável em um único livro, um livro concebido como um centro

de incontáveis relações, como uma "reserva de formas" (GENETTE, 1972, p. 129),

formas que esperam para ser preenchidas pela leitura que ressuscita o objeto

livro, até então morto, e que produz o fato estético. A poética da criação literária

perde seu sentido em Borges para ser substituída por uma poética da leitura.

Chega-se imediatamente a uma outra conclusão: a autoria tradicional é abalada

nessa perspectiva da leitura como origem da ficção. Quem, de fato, em "A

aproximação a Almotásim", exerce a "sagrada" autoria clássica? Quem existe no

conto, de fato, como autor de algo? Esses questionamentos levam à superação

da ideia de autor como indivíduo autônomo. O narrador do conto, visto como

representação de autor, é a redefinição borgiana de autor como um grande coordenador

do engenho alheio, uma memória individual do coletivo. Daí também

o questionamento acerca da onisciência absoluta da tradição do século XIX. O

narrador borgiano mantém, de fato, uma atitude demiúrgica afastada, mas não

exerce aquela onisciência privilegiada, e sim uma onisciência particularizada,

relativa. Nesse caso, só ele teve acesso a esse romance do autor indiano Bahadur,

A aproximação a Almotásim, e a partir disso arma conjecturas sobre essa


obra e sobre sua relação com outras. Ele conta o que quer e como quer, pois

quem lê pode fazê-lo de várias formas. Assim, o narrador cria uma duplicidade

de quem leu e constrói possibilidades acerca disso.

"Coordenador do engenho alheio" ou "memória individual do coletivo" resumem,

num olhar mais atento sobre a conduta literária de Borges, uma ambição

antiga da literatura que ganha novos e dinâmicos significados em nossa época,

a "ambição de representar a multiplicidade das relações, em ato e em potencialidade"

(CALVINO, 1993, p. 127); uma ambição que se alinha à velocidade desmesurada

com que o nosso mundo cria e destrói crenças, homens e conhecimento:

A excessiva ambição de propósitos pode ser reprovada em muitos campos da

atividade humana, mas não na literatura. A literatura só pode viver se se propõe

a objetivos desmesurados, até mesmo para além de suas possibilidades de
 
 
realização (CALVINO, 1993, p. 127).


É esse grande coordenador do engenho alheio, que lida com a enorme incerteza

de um universo – cósmico ou caótico? – expandido incontrolável e implacavelmente

neste século, que vemos representado na literatura borgiana, aceitando

o grande desafio de "saber tecer em conjunto os diversos saberes e os diversos

códigos numa visão pluralística e multifacetada do mundo" (CALVINO, 1993,

p. 127). Com ele acreditamos nessa concepção de literatura como reserva inesgotável

de formas a serem preenchidas e, por isso, infinito e demoníaco sistema

de associações. Talvez o único capaz de abarcar o inabarcável.


A Aproximação a Almotásim

 


Tradução de Carlos Nejar
 
Philip Guedalla escreve que o romance The approach to Al-Mu'tasim, do advogado Mir Bahadur Ali, de Bombaim, "é uma combinação um tanto incômoda (a rather uncomfortable combination) desses poemas alegóricos do Islã que raras vezes deixam de interessar seu tradutor, e daqueles romances policiais que inevitavelmente superam John H. Watson e aperfeiçoam o horror da vida humana nas mais irrepreensíveis pensões de Brighton". Antes, o Sr. Cecil Roberts denunciara no livro de Bahadur "a dúplice, inverossímel tutela de Wilkie Collins e do ilustre persa do século XII, Ferid Eddin Attar" - pacífica observação que Guedalla repete sem novidade, mas num dialeto colérico. Essencialmente, ambos os escritores concordam: os dois indicam o mecanismo policial da obra, e seu undercurrent místico. Essa hibridação pode levar-nos a imaginar certa semelhança com Chesterton; logo comprovaremos que não há tal coisa.
 
A editio princeps da Aproximação a Almotásim apareceu em Bombaim, em fins de 1932. O papel era quase papel-jornal; a capa anunciava ao comprador que se tratava do primeiro romance policial escrito por um nativo de Bombay City. Em poucos meses, o público esgotou quatro edições de mil exemplares cada uma. A Bombay Quaterly Review, a Bombay Gazette, a Calcutta Review, a Hindustan Review (de Alahabad) e o Calcutta Englishman dispensaram-lhe seu ditirambo. Então Bahadur publicou uma edição ilustrada que intitulou The conversation with the man called Al-Mu'tasim e que subtitulou magnificamente: A game with shifting mirros (um jogo com espelhos que se deslocam). Essa edição é a que Vítor Gollanez acaba de reproduzir em Londres, com prólogo de Dorothy L. Sayers e com omissão - quiçá misericordiosa - das ilustrações. Tenho-a à vista; não consegui obter a primeira, que pressinto muito superior. Autoriza-me a isso um apêndice, que resume a diferença fundamental entre a versão primitiva de 1932 e a de 1934. Antes de examiná-la - e de discuti-la - convém que eu indique rapidamente o curso geral da obra.
 
Seu protagonista visível - nunca se nos diz seu nome - é estudante de Direito em Bombaim. Blasfematoriamente, descrê da fé islâmica de seus pais, mas, ao declinar a décima noite da lua de muharram, encontra-se no centro de um tumulto civil entre muçulmanos e hindus. É noite de tambores e invocações: entre a multidão adversa, os grandes pálios de papel da procissão muçulmana abrem caminho. Um ladrilho hindu voa de uma sotéia; alguém afunda um punhal num ventre; alguém - muçulmano, hindu? - morre e é pisoteado. Três mil homens lutam: bastão contra revólver, obscenidade contra imprecação. Deus, o Indivisível, contra os Deuses. Atônito, o estudante livre-pensador entra no motim. Com as mãos desesperadas, mata (ou pensa haver morto) um hindu. Atroadora, eqüestre, semi-adormecida, a polícia do Sirkar intervém com rebencaços imparciais. Foge o estudante, quase sob as patas dos cavalos. Busca os últimos arrabaldes. Atravessa duas vias ferroviárias ou duas vezes a mesma via. Escala o muro de um desordenado jardim, com uma torre circular no fundo. Uma chusma de cães cor de lua (a lean and evil mob of mooncoloured hounds) emerge dos rosais negros. Acossado, busca amparo na torre. Sobe por uma escada de ferro - faltam alguns lances - e no terraço, que tem um poço enegrecido no centro, dá com um homem esquálido, que está urinando vigorosamente, agachado, à luz da lua. Esse homem lhe confia que sua profissão é roubar os dentes de ouro dos cadáveres trajados de branco que os parses deixam nessa torre. Diz outras coisas vis e menciona que faz quatorze noites que não se purifica com bosta de búfalo. Fala com evidente rancor de certos ladrões de cavalos de Guzerat, "comedores de cães e de lagartos, homens enfim tão infames como nós dois". Está clareando: no ar há um vôo baixo de abutres gordos. O estudante, aniquilado, adormece; quando desperta, já com o sol bem alto, desapareceu o ladrão. Desapareceram também um par de charutos de Trichinópoli e umas rupias de prata. Diante das ameaças projetadas pela noite anterior, o estudante resolve perder-se na Índia. Pensa que se mostrou capaz de matar um idólatra, mas não de saber com segurança se o muçulmano tem mais razão que o idólatra. O nome de Guzerat não o deixa, e o de uma malka-sansi (mulher da casta dos ladrões) de Palanpur, muito preferida pelas imprecações e ódio do despojador de cadáveres. Argúi que o rancor de um homem tão minuciosamente vil importa em elogio. Decide - sem maior esperança - buscá-la. Reza e empreende com lentidão firme o longo caminho. Assim acaba o segundo capítulo da obra.
 
Impossível traçar as peripécias dos dezenove restantes. Há uma vertiginosa pululação de dramatis personae - para não falar de uma biografia que parece esgotar os movimentos do espírito humano (desde a infâmia até a especulação matemática) e de um peregrinar que compreende a vasta geografia do Indostão. A história começada em Bombaim segue nas terras baixas de Palanpur, demora-se uma tarde e uma noite à porta de pedra de Bikanir, narra a morte de um astrólogo cego numa cloaca de Benares, conspira no palácio multiforme de Katmandu, reza no fedor pestilencial de Calcutá, no Machua Bazar, contempla nascer os dias no mar desde um cartório de Madras, vê morrer as tardes no mar de uma sacada no Estado de Travancor, vacila e mata em Indapur e conclui sua órbita de léguas e de anos na mesma Bombaim, a poucos passos do jardim dos cães cor de lua. O fugitivo que conhecemos, cai entre pessoas da classe mais vil e se acomoda a elas, numa espécie de certame de infâmias. De súbito - com o milagroso espanto de Robinson ante a pegada de um pé humano na areia - percebe certa mitigação dessa infâmia: uma ternura, uma exaltação, um silêncio, num dos homens detestáveis. "Foi como se tivesse cruzado armas no diálogo um interlocutor mais complexo." Sabe que o homem vil que está conversando com ele é incapaz desse momentâneo decoro; daí postula que este refletiu um amigo, ou amigo de um amigo. Repensando o problema, chega a uma convicção misteriosa: Em algum ponto da Terra há um homem de quem procede essa claridade; nalgum ponto da Terra está o homem que é igual a essa claridade. O estudante resolve dedicar sua vida a encontrá-lo.
 
Já o argumento geral se entrevê: a busca insaciável de uma alma através dos tênues reflexos que esta deixou em outras: no princípio, o leve rastro de um sorriso ou de uma palavra; no fim, esplendores diversos e crescentes da razão, da imaginação e do bem. À medida que os homens interrogados conheceram mais de perto Almotásim, sua porção divina é maior, mas se acredita que são simples espelhos. O tecnicismo matemático é aplicável: o pesado romance de Bahadur é uma progressão ascendente, cujo termo final é o pressentido "homem que se chama Almotásim". O imediato antecessor de Almotásim é um livreiro persa de suma cortesia e felicidade; o que precede esse livreiro é um santo... Ao cabo dos anos, o estudante chega a uma galeria "em cujo fundo há uma porta e uma esteira barata com muitas contas e atrás um resplendor". O estudante bate palmas uma e duas vezes e pergunta por Almotásim. Uma voz de homem - a incrível voz de Almotásim - convida-o a passar. O estudante abre a cortina e avança. Nesse ponto o romance acaba.
 
Se não me engano, a boa elaboração de tal argumento impõe ao escritor duas obrigações: uma, a variada invenção de rasgos proféticos; outra, a de que o herói prefigurado por esses rasgos não seja mera convenção ou fantasma. Bahadur satisfaz a primeira; não sei até onde a segunda. Em outras palavras: o inaudito e não contemplado Almotásim deveria deixar-nos a impressão de um caráter real, não de uma desordem de superlativos insípidos. Na versão de 1932, as notas sobrenaturais rareiam: "o homem chamado Almotásim" tem seu bocado de símbolo, mas não carece de traços idiossincrásicos, pessoais. Infelizmente, essa boa conduta literária não persistiu. Na versão de 1934 - a que tenho à vista - o romance decai em alegoria: Almotásim é emblema de Deus e os pontuais itinerários do herói são, de alguma forma, os progressos da alma na ascensão mística. Há pormenores aflitivos: um judeu negro de Kochin, ao falar de Almotásim, diz que sua pele é escura; um cristão o descreve sobre uma torre com os braços abertos; um lama vermelho recorda-o sentado "como essa imagem de manteiga de iaque que modelei e adorei no mosteiro de Tashilhunpo". Essas declarações querem insinuar um Deus unitário que se acomoda às desigualdades humanas. A meu ver, a idéia é pouco estimulante. Não direi o mesmo desta outra: a conjetura de que também o Todo-Poderoso está em busca de Alguém, e esse Alguém de Alguém superior (ou simplesmente imprescindível e igual) e assim até o Fim - ou melhor, o Sem-Fim - do Tempo, ou em forma cíclica. Almotásim (o nome daquele oitavo Abássida que foi vencedor em oito batalhas, gerou oito varões e oito mulheres, deixou oito mil escravos e reinou durante o espaço de oito anos, de oito luas e de oito dias) quer dizer etimologicamente O procurador de amparo. Na versão de 1932, o fato de que o objeto da peregrinação fosse um romeiro justificava de maneira oportuna a dificuldade de encontrá-lo; na de 1934, dá margem à teologia extravagante que mencionei. Mir Bahadur Ali, vimo-lo, é incapaz de soslaiar a mais burlesca das tentações da arte: a de ser um gênio.
 
Releio o anterior e temo não ter destacado suficientemente as virtudes do livro. Há particularidades muito civilizadas: por exemplo, certa disputa do capítulo dezenove na qual se pressente que é amigo de Almotásim um contendor que não rebate os sofismas do outro, "para não ter razão de forma triunfal".
 
 
Entende-se ser honroso que um livro atual derive de um antigo: já que a ninguém agrada (como disse Johnson) nada dever a seus contemporâneos. Os repetidos mas insignificantes contatos do "Ulisses" de Joyce com a "Odisséia" homérica continuam escutando - nunca saberei por que - a atordoada admiração da crítica; os do romance de Bahadur com o venerado "Colóquio dos pássaros" de Farid ud-din Attar conhecem o não menos misterioso aplauso de Londres, e ainda de Alahabad e Calcutá. Outras derivações não faltam. Certo investigador enumerou algumas analogias da primeira cena do romance com a narrativa de Kipling On the City Wall; Bahadur as admite, mas alega que seria muito anormal que duas pinturas da décima noite de muharram não coincidissem... Eliot, com mais justiça, recorda os setenta cantos da incompleta alegoria The Faërie Queene, nos quais não aparece uma única vez a heroína, Gloriana - como salienta uma censura de Richard William Church (Spencer, 1879). Eu, com toda humildade, assinalo um precursor distante e possível: o cabalista de Jerusalém, Isaac Luria, que no século XVI propagou que o espírito de um antepassado ou mestre pode entrar na alma de um infeliz, para confortá-lo ou instruí-lo. Chama-se Ibbür essa variedade da metempsicose.(1)
 
............................................................................
 
(1) No decurso desta notícia, referi-me a Mantiq al-Tayr (Colóquio dos pássaros), do místico persa Farid al-Din Abu Talib Muhammad ben Ibrahim Attar, a quem os soldados de Tule mataram, filho de Zingis Jan, quando Nishapur foi espoliada. Talvez não consiga resumir o poema. O remoto rei dos pássaros, o Simurg, deixa cair no centro da China uma pluma esplêndida; os pássaros resolvem buscá-lo, cansados de sua antiga anarquia. Sabem que o nome de seu rei quer dizer trinta pássaros; sabem que sua fortaleza está no Kaf, a montanha circular que rodeia a Terra. Empreendem a quase infinita aventura; superam sete vales, ou mares; o nome do penúltimo é Vertigem; o último se chama Aniquilação. Muitos peregrinos desertam; outros perecem. Trinta, purificados pelos trabalhos, pisam a montanha do Simurg. Enfim o contemplam: percebem que eles são o Simurg e que o Simurg é cada um deles e todos. (Também Plotino - Enéadas, V, 8, 4 - descreve uma extensão paradisíaca do princípio de identidade: Tudo, no céu é inteligível, está em todas as partes. Qualquer coisa é todas as coisas. O Sol é todas as estrelas, e cada estrela é todas as estrelas e o Sol.) O Mantiq al-Tayr foi vertido ao francês por Garcin de Tassy; ao inglês, por Edward Fitzgerald; para esta nota, consultei o décimo volume das Mil e uma noites de Burton e a monografia The persian mystics: Attar (1932), de Margaret Smith.
Os pontos de contato desse poema com o romance de Mir Bahadur Ali não são excessivos. No vigésimo capítulo, umas palavras atribuídas por um livreiro persa a Almotásim são, talvez, a magnificação de outras que disse o herói; essa e outras ambíguas analogias podem significar a identidade do buscado e do buscador; também podem significar que este influi naquele. Outro capítulo insinua que Almotásim é o "hindu" que o estudante crê ter matado.
 


- Fim -

sábado, 28 de dezembro de 2013

Hunter S. Thompson e o jornalismo gonzo




A Penguin compilou os melhores artigos de Hunter S. Thompson na "Rolling Stone". Um olhar cínico e uma escrita furiosa, um tempo ausente do jornalismo e da política de hoje

Hunter S. Thompson ainda não tinha inventado a sua própria personagem no jornalismo norte-americano quando escreveu "O Diário a Rum", obra de ficção inspirada nos seus inícios em Porto Rico e agora adaptada ao cinema por Bruce Robinson ("Withnail e Eu", 1987). Thompson era, no início dos anos 60, um romancista frustrado que reescrevia "O Grande Gatsby" na sua máquina de escrever, procurando um ritmo que apenas ganhou mais tarde em publicações periódicas ao relatar a fúria das divisões em que os EUA cairiam na década seguinte.


Regressando ao seu país, mais tarde, para escrever sobre os Hell's Angels ("Hell's Angels", 1966), atirou-se aos mitos fabricados da gangue mais temida das estradas americanas. O reconhecimento do livro colocou-o no centro de uma nova forma de olhar para as comunidades dos EUA. Mas seria na revista "Rolling Stone", a partir de 1970, que encontraria a plataforma ideal para a experimentação da sua escrita, recolhendo impressões, e colocando a sua própria figura no centro dos textos sobre acontecimentos sociais e políticos. Esses artigos encontram-se agora reunidos em "Fear and Loathing at Rolling Stone: The Essential Writing of Hunter S. Thompson" (ed. Allen Lane, Penguin).



Teresa Botelho, especialista em estudos americanos da Universidade Nova de Lisboa, refere que Hunter S. Thompson "está dentro do ‘novo jornalismo' que vê a fronteira entre ficção e jornalismo objectivo esboroar-se." A literatura norte-americana via, então, autores de ficção inspirarem-se em técnicas do jornalismo, como Truman Capote ("A Sangue Frio", 1965) ou Norman Mailer ("Os Exércitos da Noite", 1968). Thompson, à semelhança de Tom Wolfe ("The Electric Kool-Aid Acid Test", 1968), partiu para uma linguagem individual de ficção a partir das suas impressões sobre a realidade, criando a sua estética: "Gonzo". "Há várias interpretações sobre o que Gonzo quer dizer, mas terá a ver com uma capacidade de difusão das percepções da realidade", diz Teresa Botelho.



Thompson, enquanto personagem dos seus próprios textos, oferecia uma impressão da realidade afectada, física e criativamente, pelo consumo de drogas. Mas seria ele a contribuir para criar uma instituição central da contracultura americana - a "Rolling Stone" - e fazer dele próprio uma das suas maiores figuras. "Ninguém comprava a ‘Rolling Stone' para saber o que acontecia, mas o que certas pessoas interpretavam a partir da realidade", explica Botelho. "E o ‘jornalismo'de Thompson era agressivo porque correspondia a um período agressivo."



"Fear and Loathing in Las Vegas" (1971), lançada originalmente em vários números da revista, seria a sua obra-mestre: relato alucinado de uma viagem a Las Vegas, desvirtuação suprema de um sonho americano que vê a estrada chegar ao fim, fechando uma ilusão aberta em "On The Road" (1957) de Jack Kerouac. Foi adaptado ao cinema em 1998, por Terry Gilliam, e com Johnny Deep como protagonista, em "Delírio em Las Vegas".



A ficção dos papéis políticos



Para Teresa Botelho, "Thompson vai à procura da derrapagem do sonho americano: ao fazer uma investigação das derrapagens políticas e sociais de um momento específico, olha para um período em que as clivagens entre as promessas e as realidades se tornaram transparentes." As divisões internas dos EUA, e a fúria do seu povo face ao cinismo em que o seu modo de vida caíra, formaram a escrita intempestiva de Thompson.



Mas o autor encontraria, na política e nas suas formas de representação, a suprema forma de ficção das relações do seu país, vendo na figura de Nixon, por sua vez, a personagem máxima da manipulação obscura do sonho americano. "Richard Nixon parece ter sido feito de encomenda para Hunter S. Thompson", afirma Botelho. "É um momento em que não só a sua personalidade é inescapável, mas em que a aparente derrocada do sonho e da unidade americana ocupa o centro das preocupações."




Depois de Las Vegas, Thompson instala-se em Washington D.C. para escrever sobre a campanha eleitoral de 1972. O resultado, e que ocupa boa parte da colectânea agora lançada, é considerado como um dos olhares mais originais e incisivos sobre a representação e o teatro da política americana: "Fear and Loathing on the Campaign Trail '72". "Thompson é particularmente talentoso na cobertura das campanhas presidenciais", afirma Botelho, "e talvez mais ninguém tenha usado uma abordagem tão irónica e desconstrutora dos seus rituais."



Em 1970, Thompson tinha sido candidato a um cargo de xerife no Colorado, desmistificando, pela sua campanha, a imagem estabelecida de um candidato, das suas propostas políticas, e dos estereótipos feitos do papel dos eleitores. Mas ao relatar a campanha democrata e republicana para a presidência de 1972 - que resultou numa esmagadora vitória de Nixon, pouco antes do escândalo de Watergate -, Thompson faria um retrato mordaz dos mecanismos do poder e dos discursos dos seus candidatos.



A sua atracção pela ficção reconheceria, aqui, um palco de narrativas e personagens feito à medida da ilusão de um país - uma política contaminada por "junkies políticos" e indivíduos distanciados da realidade, tal como um autor influenciado pelas suas próprias substâncias. Para Teresa Botelho, "foi um período de grande cepticismo: as divisões em relação à guerra do Vietnam; a desilusão com Nixon, que prometeu terminar com a guerra na campanha e demorou mais 5 anos a fazê-lo; e uma política externa despida dos discursos idealistas tradicionais, que culmina com a suprema arrogância de Nixon em dizer [sobre Watergate] que se é um Presidente que o faz, não é ilegal."




Hunter S. Thompson chegaria a inventar uma droga - "Ibogaine" - para explicar o comportamento errático de Edmund Muskie, candidato democrata que desperdiçou as suas hipóteses devido ao desconforto da sua postura anti-mediática. "Se nos colocarmos na posição de Muskie, vemos que está a ser ficcionalizado. Mas qualquer jornalista, hoje em dia, seria imediatamente despedido se inventasse um facto não existente sobre alguém." À ficção da política, Thompson respondia, portanto, com a ficção da escrita, colocando-se como um cientista político louco (ou "Dr. Thompson", como se apresentava) ao mesmo nível que os políticos que descrevia. Contudo, e após a retirada de cena de Nixon (com a sua demissão da Presidência em 1974), Thompson foi igualmente desaparecendo das páginas, regressando apenas, na "Rolling Stone", para encomendas cada vez mais espaçadas no tempo.




Em 2005, Hunter S. Thompson colocaria um termo à sua vida, pondo em prática a atracção pelo abismo que a sua escrita evidenciava e também se mostrara desiludido com o rumo do seu país, chegando mesmo, após a eleição de George W. Bush em 2000, a proclamar saudades do seu vilão Richard Nixon. Thompson via, assim, a decadência das formas de fazer política - ainda que corruptas -, hoje marcadas pela paródia mediática. "Só se escalpeliza o que tem densidade, e olhando para a campanha que decorre, damos por nós, tragicamente, com saudades de Nixon, um vilão com quem valia a pena esgrimir."



Segundo Botelho, "o facto de hoje não termos essa sofisticação sardónica e outros Hunter S. Thompson é também função dos objectos humanos que temos à nossa frente."





Mas se Medo e Delírio não foi um clássico nos cinemas, apesar de ser reconhecidamente um filme cult, o documentário Gonzo: The Life and Work of Dr. Hunter S. Thompson se saiu muito melhor. O documentário é um apanhado da vida de Thompson em vídeo. Mas diferente das outras duas aqui vemos tudo pelos olhos dos que presenciaram sua carreira. O documentário faz duas coisas muito bem: reúne um monte de gente importante que conheceu Thompson – tem até Jimmy Carter na jogada – e os coloca pra depor; e é também um resumo da trajetória política, social e cultural de uma América do Submundo, aquela que só é notícia quando explode e invade a elitista. É a América de Jack Kerouac, de Willian Burroughs, de Robert Crumb. E aqui em Gonzo, vemos as duas facetas desse país tão amado e odiado.


Johnny Depp volta ao mundo da contracultura de Thompson, narrando o documentário em momentos-chave da vida do jornalista. É justamente a entrada de Depp – ele e Thompson viraram amigos com as filmagens de Medo e Delírio – que possibilitou que o diretor Alex Gibney pudesse contar com gente importante dando depoimentos, como Jann Wenner (fundador e editor da Rolling Stone), Sonny Barger (todo-poderoso dos Hell’s Angels) e Ralph Steadman (ilustrador de diversas reportagens de Thompson), entre outros.


O problema é que com a morte de Thompson, ninguém mais estava disposto a depor. Somente com Depp – que bancou um milionário funeral de Thompson, que incluiu até a jogada das cinzas dele para o espaço – é que foi possível reunir depoimentos emocionados e de gente importante que estavam a frente da América no período em que Hunter mudou a cara do jornalismo dos EUA.