quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Língua maior


 
Gilles Deleuze


http://seer.ucg.br/index.php/guara/article/viewFile/2157/1329



É na leitura deleuzeana de Kafka que vemos o autor problematizar a noção

de literatura menor. Afinal, o que isso quer dizer? Deleuze esclarece-nos: "Uma literatura

menor não pertence a uma língua menor, mas, antes, à língua que uma minoria

constrói numa língua maior" (DELEUZE, 2002, p. 38). Desse modo, para Deleuze, a

literatura menor está relacionada a uma certa minoria que usa, cria e recria a língua

fazendo da mesma uma língua maior. Sem dúvidas, na Literatura brasileira, o mestre

Guimarães Rosa criou uma nova língua dentro de sua própria língua, fazendo de sua

escrita - arte uma literatura menor. Certamente um dos maiores escritores da ficção

universal que conseguiu com arte, beleza e sensibilidade arrastar o pensamento para

fora dos sulcos costumeiros da linguagem. É, sem dúvida, um gago de sua língua, pois

embaralhou os códigos da Sintaxe e da Morfologia e fez uma língua estranha e confusa

dentro da sua própria língua. É desse processo de criação invenção e re-invenção da

língua que Gilles Deleuze está falando. De um processo de criação maquínico da palavra.

Escrever significa colocar a língua em movimento, em salto, em devir. É, enfim,

colocar a língua na corda bamba, ou, melhor dizendo, na travessia.

Criar é gaguejar a língua. Tal gagueira não está relacionada a um sujeito e nem

a um objeto. Nem ao sintagma e nem ao paradigma e, sim, a um continuum amorfo


lingüístico da criação que funde o conteúdo na expressão, a língua na fala, a sincronia

na diacronia. A língua é um processo. É um devir intenso que povoa essa micro e

essa macro política da linguagem. Não se trata de obedecer a uma regra gramatical.

Trata-se de encontrar a língua de fuga, a desterritorialização absoluta da própria linguagem.

Trata-se de encontrar a zona de vizinhança e indiscernibilidade possível no

meio, intermezzo. Fazer da língua um salto, um diálogo com "o fora" significa driblar


os códigos, embaralhar, dificultar, confundir para pensar. Guimarães Rosa, Clarice

Lispector, Kafka, Goethe, Machado de Assis, Dostoievski, Tomas Mann e outros escritores

que ousaram na sua língua são de difíceis compreensões por isso: gaguejaram

a sua língua. Inventaram um povo que falta. Esse é o papel de quem escreve: inventar

um povo que falta. Tal invenção está ligada a um processo de pura luta com as pala

vras. É nessa luta à luz do dia com a palavra que o escritor é capaz de testemunhar a

arte e a vida. Carlos Drummond lutou com as palavras. Tal luta é a empreitada difícil e

perigosa de quem faz literatura. Ao escrever, não se escreve com palavras e, sim, com

fluxos, com devires, com intensidades, São matérias primas das palavras.

A palavra é o sopro da vida.

O homem fala continuamente. Mesmo quanto está calado. A linguagem é a

testemunha da vida na medida em que o escritor faz a língua vibrar, fende-a, arrasta-

-a e movimenta o pensamento em jogo infinito de luz e sombra, mostrando assim, o

lado obscuro e cavernoso das dobras da alma humana. É a literatura a quintessência

da vida. Quem escreve faz um pacto com a linguagem. Pactuar é dar um certo sentido

à vida. Escrever é dar sentido à vida. É a própria vida que flui na escrita e faz com que

o homem se redescubra e se reconheça no processo de criação. Criar é aligeirar, é descarregar

a vida. É inventar novas possibilidades de vida.

O homem, como que um barquinho jogado nas correntezas da vida, é forçado a

criar sua terceira margem através do processo de criação. Desde nasce, que é "jogado

no mundo", é desafiado a criar a sua morada através da linguagem. Tal travessia se

dá na medida em que ele se coloca à caminho da pergunta pela linguagem. Perguntar

pela linguagem é perguntar pela vida, Desse modo, Literatura-linguagem e vida

formam uma trilogia, um único platô que compõe esse complexo agenciamento que

chamamos de arte Literária. É abusando e lambuzando com a linguagem que cada escritor

é capaz de fazer um mundo possível emergir. A literatura é um agenciamento

político. É uma máquina de guerra.

Deleuze, em seu Kafka apresenta três conceitos que se acoplam nesse agenciamento


literário que une conteúdo e expressão: a linguagem, o político e o colectivo.

No entendo, uma das características de uma literatura menor para Deleuze, é que

nela tudo é político, pois todas as questões individuais têm uma forte relação com a

política. A escritura roseana está intimamente relacionada com a política. É toda uma

política que povoa as veredas de Rosa. Riobaldo é jagunço político porque especula

ideias, abraça o logos, a palavra. A outra característica é que tudo toma um valor colectivo.

É desse modo que segundo Deleuze:




É a literatura que se encontra carregada positivamente desse papel e dessa

função de enunciação coletiva e mesmo revolucionária: a literatura é

que produz solidariedade activa apesar de cepticismo; esse o escritor está

à margem ou à distância de sua própria comunidade, a situação coloca-o

mais à medida de exprimir uma outra comunidade potencial, de forjar os
meios de uma outra consciência e de uma outra sensibilidade (DELEUZE,


2002, p.40).

É dessa maneira que Deleuze encara a literatura: a partir dessa trilogia linguagem-

político- colectivo. Quando Deleuze aborda a obra de Kafka, o autor a encara como

uma Toca, um rizoma de entradas múltiplas. Foi dessa maneira que os escritores de

nosso tempo conseguiram fazer da linguagem e da vida uma corrente contínua. É essa

busca das pressões secretas da obra de arte que faz com que o leitor entre nessas zonas

de intensidades com o pensamento. Assim, a busca dos signos consiste no aprendizado

e na busca da verdade. Para isso, é preciso um esforço da memória no passado e no

presente para que haja um aprendizado na busca contínua do signo que remete a uma

resposta ou a uma explicação que procuramos.

Na ótica deleuzeana:



 A verdade não é descoberta por afinidade, nem por livre arbítrio, ela se

trai por signos involuntários. A pessoa só busca a verdade quando se sente

forçado a procurar a verdade. O signo é objeto a ser interpretado, decifrado,
traduzido e encontrar o sentido do signo (DELEUZE, 2003, p.9).


Buscar a verdade é se redescobrir no tempo e não "perder tempo". A revelação

final de que há verdades a serem descobertas nesse tempo que se perde é o resultado

essencial do aprendizado. Nunca se sabe como uma pessoa aprende, mas a forma em

que se aprende é sempre por intermédio de signos, perdendo tempo, e não pela assimilação

de conteúdos objetivos.

(...)

Em Deleuze, a linguagem não se separa da vida. Ela faz dobra, desdobra e redobrar

o pensamento ao infinito. Não existe comunicação individual, é preciso ter

uma relação entre sujeito para que aconteça a coletividade de palavras ao meio social

a linguagem entre ambos. Há um conjunto de corpos que define o real do imaginário,

assim valorizando a fala de alguém no discurso direto, ao ouvinte e o que fala. Nesse

sentido de que a linguagem é mais precisamente a transformação dos povos na realidade

dentro da sociedade que necessariamente precisa se comunicar entre si. A palavra

de ordem existe em todos os momentos em que pronunciamos algo, é preciso organizar

os pensamentos e proferir palavras no ato de falar alguma coisa. Na sociedade

acontecem variações de acontecimento de agenciamento que determina situações que

atribui transformações e que exerce poder na vida das pessoas. Esses acontecimentos

são inevitáveis no mundo das relações humanas. Por isso ao expressar palavras temos

que ter conhecimento verdadeiro a ser lançado fora, ou seja, a ser transmitida a outra

pessoa.

Segundo Deleuze (2003, p. 11):

A linguagem exerce poder e autoridade, sobre nossos alunos. O professor

quando fala, ele ‘ensigna’, da ordem, comanda. A linguagem não é feita

para que se acredite nela, mas para obedecer e fazer obedecer. A linguagem

não é a vida, ela da ordem à vida, a vida não fala, ela escuta e guarda.

Observe que a fala exerce poder na vida das pessoas. Até mesmo na Bíblia Sagrada,

na lei de criação do mundo, Deus usa o poder da palavra. Fez, e aconteceu.

Isso porque o homem é porta voz do logos, ou seja, da razão. O mundo foi criado

pelo poder da linguagem e da palavra. Ela tem um poder imenso na vida de alguém

ou do que se fala. A fé vem por ouvir a palavra de Deus. Olha como a linguagem a

fala é poderosa. Ao falar algo ou discursar é preciso planejar e organizar as palavras,

antes de emitir. A linguagem pode ser definida pelo conjunto das palavras de ordem,

pressupostos implícitos ou atos de fala que percorrem uma língua em um dado momento,

seja no momento político, social, sentimental. Devemos ter muito cuidado

com o que falamos, pois a linguagem destrói e edifica. O poder da fala é tão grande

que ela mata um ser humano, depende da situação ou da fala. A fala de uma pessoa

muda tudo, pode até mesmo ser julgado ou muda o estado do indivíduo, depende de

caso a caso. A palavra expressiva de ordem faz mudar a natureza, aos quais se atribui

a transformação ou destruição.

Ao formalizar um matrimônio, entre um homem e uma mulher eles estão mudando

seu estado civil de solteiros para casados. O poder da fala do escrivão ou do pastor

entre as pessoas presente no ato cerimonial muda seu estado civil, perante a lei de

Deus e do homem. A frase é está; eu vos declaro marido e mulher, ou seja, "casados".

E o que Deus uniu, não separa o homem. Observe que a linguagem do pastor e do escrivão,

são as mesmas palavras com os mesmos significados. O discurso planejado e

as falas são as mesmas no tocante do acontecimento social durante a cerimônia. Sendo

assim, realizado a cerimônia matrimonial, ela muda toda a vida de duas pessoas,

e começa uma nova vida, e dando início a uma nova família. Tudo isso com o poder

da palavra. Um conjunto de palavras que formou um discurso direto formalizando e

unindo duas vidas. Uma mudança de comportamento entre duas pessoas e duas famílias,

envolvendo várias pessoas. Quando demoramos ao pensarmos em algo, para emitir

palavras, estamos organizando a fala e dando sentido ao "signo" a ser emitido. Ao

escrever um discurso político é necessário organizar um discurso direto e ao mesmo

tempo indireto, formal e informal, com um significado ao seu objetivo a ser alcançado

com esse discurso. Essa é a regra da linguagem a ser expressa.

A linguagem é aprendida e, nesse sentido, somos obrigados a ir das partes ao

todo. Aprendemos a falar de início a linguagem positiva, na tentativa de se comunicar,

dando sentido aos signos. As palavras fonéticas e as variações de palavras que recebeu

no princípio. No início de sua formação lingüística, as palavras são apenas para comunicação.

Como o espaço de tempo o indivíduo vai aprimorando, aprendendo novas palavras,

dando sentido aos signos. Novas expressões, como maneira única de utilizar-se

da palavra. Só a língua como um todo permute compreender e atrair um turbilhão de

palavras na tentativa de se verbalizar por si mesma. A linguagem formal e sintaxe, e

irão enriquecer-se realmente e verbal através do estudo da língua em um todo e com

o aprimoramento verbal. A cultura da linguagem nunca está terminada, ou que data

nosso saber. Sempre aprendemos novos signos, que não pode ser posto a parte, que no

futuro será mais compreensiva.

No tocante à linguagem, só tem sentido com a relação entre signos e seu significados

as palavras. O signo está totalmente envolvido na linguagem, a palavra intervém

sempre de outra palavra. Nunca é limitada a não ser pela própria linguagem, tanto

para aquele que fala, ou para quem ouve. O sentido é o movimento total da palavra,

e é por isso que nosso pensamento demora-se na linguagem. A linguagem vai além dos

"signos" rumo ao sentido dele. Os sentidos dos signos só aparecem no intervalo das

palavras.

Por isso não existe comunicação individual ou enunciação individual. Existem

necessariamente a linguagem de caráter social da enunciação coletiva. A linguagem

não consiste apenas em comunicar o que se viu, mas um transmitir o que se ouviu o

que o outro disse. A linguagem é transmitir conhecimento, trocar experiência ao mes

mo tempo. É preciso formalizar a linguagem ao pensamento no sentido de emitir palavras

indesejáveis ao receptor.

Para percorrer tal empreitada linguística, é preciso, primeiramente estabelecer

a relação entre "signo, verdade e aprendizado" em um costura prodigiosa de signos.

Em um outro momento, "A linguagem indireta e as vozes do silêncio" acopla-se a uma

discussão filosofia que pretende levar o silêncio ao extremo com o linguístico. Logo

adiante, "A linguagem e o grão da voz" são rumores emitidos pelos signos pelo viés de

Roland Barthes. A polifonia do ato de ler é um giro dentro de um discurso linguístico

que é aberto às várias possibilidades de olhares, envolvendo a decifração e interpretação

de signos ou hieróglifos.

Destarte, é tendo a linguagem como testemunha da vida que podemos aliar Literatura

e Filosofia que são filhas do mesmo caos, da mesma gestação, pois é a vida

que está em jogo tanto da Filosofia da Diferença que apela para arte como potência de

criação, como a Literatura que é em si o signo e a maior voz da diferença. O que isso

quer dizer? Essa será nossa próxima dança.

(...)

É bem verdade que Deleuze, em Proust e os Signos fala da superioridade da arte

em relação até mesmo á Filosofia. Para o pensador da Diferença, muito mais que a

Filosofia é a poesia. É na arte que todos os signos se fundem: os signos mundanos, os

amorosos e os dos ciúmes. A Literatura, desse modo, transforma-se numa prodigiosa

máquina de signos. Do tempo perdido ao tempo redescoberto é toda uma maquinaria

que emite signos e nos forçam a pensar. Assim, temos a literatura como forte pensar,

pois é a potência e a metamorfose da vida. A Literatura não somente potencializa a

vida, como é ela mesma a vida transfigurada. É a Literatura a arte da diferença, pois

trata-se do mundo virado de cabeça para baixo, onde cada escritor tem o poder de potencializar

a linguagem e gaguejar o mundo de uma outra forma, apelando assim, para

um povo que ainda falta.

 

Uma pergunta inevitável e necessária que devemos fazer é em que sentido podemos

afirmar que Gilles Deleuze é um filósofo da diferença? Quando falamos em

diferença o que estamos levando em consideração? Ora, Deleuze é considerado por

alguns de seus estudiosos um filósofo que cria monstros nas costas de outros filósofos.

Tentou assim, embaralhar os códigos do pensamento e com isso, nos forçar a pensar.

A força do pensamento em Deleuze encontra sua gênese no ato de pensar do próprio

pensamento. Com isso, ele desfaz toda idéia de representação clássica e nos inspira a

criar uma nova maneira de pensar. Um pensar criativo, um pensamento artista. Um

pensamento-acontecimento que se transforma em uma verdadeira potência ou máquina

de guerra. Devemos a ele essa nova concepção de diferença que está por sua vez,

além das dicotomias, além do ser e do ente, pois se desterritorializa, se bifurca, formando

um gigantesco leque de dobras. É um pensamento que opera por dentro e por

fora, sem começo e sem fim, como um rizoma, um pensamento raiz, caosmo - radícula

que brota de dentro para fora.

É pensar por estratos, linhas de fuga, buracos negros, dobras, rizomas, ritornelos. É inventar novos

territórios desertos, estriados, lisos. É criar um pensamento que nunca foi e nunca

será. É criar uma nova imagem do pensamento. Um pensamento sem imagem. Pensamento

vampiro por excelência. É o devir-intenso do pensamento. É como uma bruxa

que pega sua vassoura e vai para longe. Para o deserto, como fez Guimarães Rosa que

começou o sertão "Nonada" e nos fez "remexer vivos" com sua escrita diabólica. Pensar

o impensado é o maior desafio de quem quer fazer a diferença. Rir de nós mesmos e dos doutores da finalidade da existência. Enfim, trocar a

confiança pela desconfiança e é do conceito que primeiro devemos desconfiar. Assim,

a pedagogia conceitual deixa um caos surgir dentro de si para surgir uma estrela brilhante,

lembrado o mestre Zaratustra. É desse caos que surge o pensamento.

Disso nos mostrou Guattari em Caosmos ao nos mostrar a potência de um novo


paradigma estético que, segundo ele, "tem implicações ético-políticas" (GUATTARI,

1992, p.137), pois quem fala em criação fala em uma política da responsabilidade da

instância criadora em relação à coisa criada. Fala sim, em produção de subjetivação

criadora, em invenção de novas possibilidades de vida.
. É do caos que inventamos e re-

-inventamos a vida e damos um sim a ela. O mundo nos emite signos e nós somos os seus

decifradores. Depois de Nietzsche, tudo é interpretação, é uma disposição do olhar. Assim,

Nietzsche, Deleuze e Foucault e certamente Derrida, formam uma dinastia. São filósofos

da fronteira com o pensamento. Da margem entre a Filosofia e a Arte. São arquitetos

das palavras, das coisas, da linguagem, da criação. São filósofos que criaram uma

nova imagem do pensamento, que é um pensamento sem imagem. Dessa forma, um

pensamento esquizo rompe com a clausura, desconstrói o pensamento, lembrando brevemente

Derrida e opera um novo corte no caos. Um corte que, sem dúvida toda história

da Filosofia não conseguiu digerir. Sair da clausura do ser e do ente é uma difícil empreitada

que a tradição não conseguiu romper, pois, sabemos, dos gregos a Heidegger, a linguagem,

a pergunta é a mesma, pelo Ser que ficou no esquecimento. Fazer vazar, limar o

muro, escorrer entre fluxos e cortes, desterritorializar, desertificar o pensamento, devir

intenso, acontecimento, nomadismo, acelerar o pensamento, dar velocidade infinita

aos conceitos e ao pensamento, sair da casa do ser, ser nômade, errante, transgressor,

maldito, debandado, máquina de guerra, enfim, são apenas algumas palavras que

compõem o mapa deleuzeano de pura invenção de conceitos.

Em outras palavras, a Filosofia somente tem sentido quando estiver relacionada

à vida, pois Deleuze reconhece que a Filosofia, assim como a Literatura, são testemunhas

da vida. A vida ativa o pensamento e esse, por sua vez, afirma a vida. Filosofar

não é repetir conceitos, idéias e sim, celebrar a vida e fazer dela uma manhã de festa.

Dar as mãos para Dioniso e tornar artisticamente a vida mais suportável. Nietzsche já

havia nos mostrado em O Nascimento da Tragédia que a arte está relacionada a esse


duplo impulso da natureza que é o apolíneo e o dionisíaco, pois Dioniso é tudo o que se

afirma, é o dançarino, a desmedida, é a alegria, é o prazer e Apolo, como o poder da individuação,

é a medida justa, a "bela aparência". Assim, apesar de viverem em intensa

discórdia, Apolo não existe sem Dionísio. A arte então, para Nietzsche e, certamente

para Deleuze, é uma espécie de tônica vital. É uma forma de intensificar e embelezar

a vida. Assim, os signos da arte são superiores ao conhecimento, pois a arte afirma a

vida e o conhecimento a aniquila. Enfim, somente aprendemos quando deciframos as

pressões secretas da obra de arte.

Dessa maneira, o móbil que povoa o pensamento maquínico é o da criação e da


invenção de novas possibilidades de vida. Parece chegarmos a concordar com Michel

Foucault ao dizer que um dia, talvez, nosso século será deleuzeano. Chegar a esse século

implica uma virada na tradição para sairmos da Filosofia pela própria Filosofia.

Essa é a linha de fuga, é a política da dobra dos Signos e da subjetivação criadora, da

diferença e da eterna repetição do mesmo. Chegar a esse século é fazer da vida uma

verdadeira obra de arte. Significa enfim, ter uma sensibilidade diante dos signos da

arte, da Filosofia e da vida e afirmá-la no que ela tem de mais cruel e a aterrorizador

e no que ela tem de mais belo, petulante, reluzente, flutuante e movente. Somente

assim, podemos ser capazes de inventar um mundo que ainda falta: sendo gagos de

nossa própria língua e, nessa gagueira, afetar o outro com nossos signos violentos,

plurais e secretos. A Filosofia , assim como a Literatura, é uma verdadeira "prosa do

mundo", diria Foucault que está por ser feita pelo "demônio da criação". Mas elas

são, acima de tudo, prodigiosas máquinas de emitir signos. Ambas têm seus signos

próprios e maneiras próprias de nos afetar. Cabe a nós decifrar esse leque de signos

que dobram, desdobram e redobram ao infinito.

Dito de outra maneira, é a literatura a soberana do homem. Isso porque, ao se colocar

à caminho da linguagem, o escritor, artista e tecelão da palavra, mostra o mundo,

velando e des/velando ao mesmo o enigma da vida. A literatura como potência, é

signo da diferença, pois a arte da palavra é a eterna casa de quem testemunha a vida,

mostrando assim seus múltiplos signos, verdades e aprendizados que não são da arte e

sim, da própria vida.

Deleuze e o impulso alegórico

 


Deleuze e o Impulso Alegórico: A Arte como o 'Outro' da Filosofia

JORGE LUCIO DE CAMPOS

A virulência de Gilles Deleuze para com as formas canônicas da modernidade (não apenas a dele, mas a de todos os outros filhos da geração pós-68 francesa) se deve tanto à empreinte nietzschiana de seu pensamento, quanto a uma indole de reacionismo ‘regional’ — característica das últimas três décadas — que se convencionou (e ainda se insiste em) chamar de ‘pós-modernismo’.

Na esteira de convicções mais ácidas como as de Fredric Jameson, não é difícil reconhecer que um pensador como ele — que amiúde trabalha com os conceitos alheios, incorporando-os mais do que simplesmente citando-os (e atingindo, por vezes, o nível da própria indiscernibilidade) — revela-se um típico dissolutor das "velhas categorias de gênero e linguagem", um legítimo representante do que o intelectual norte-americano entende (pejorativamente) por ‘teoria contemporânea’, ou seja, "uma espécie de escritura (…) que é, ao mesmo tempo, todas e nenhuma dessas matérias (ciência política, sociologia, crítica literária, etc.) (tendo) esta nova espécie de linguagem sido associada, em geral, à França e à teoria à francesa e se difundido amplamente, marcando o fim da filosofia enquanto tal". Isso posto, entre as manifestações ‘puras’ da pós-modernidade também poderiam (e deveriam) ser incluídos pensadores como Michel Foucault, Jean-François Lyotard e Clément Rosset em razão de terem igualmente propugnado em seus textos tal discurso ‘indecidível’.

Graham Burchell, aludindo a um dos principais romances de Michel Tournier, fala-nos sobre seu audacioso projeto de conceber "o equivalente literário daquelas sublimes invenções metafísicas que são o cogito em Descartes, os três tipos de conhecimento em Spinoza, o esquematismo transcendental de Kant, a redução fenomenológica em Husserl". Mal comparando as ambições de Tournier com as de Deleuze, é possível visualizar, no que diz respeito ao último, um projeto-antípoda que rastrearia um sucedâneo filosófico para certos operadores de duplicidade tão comuns na arte contemporânea com destaque óbvio para a montagem e seus matizes poéticos de Picasso aos artistas pop.

O princípio-colagem — princípio do qual o texto deleuziano é amplamente devedor — manifestou-se nas principais correntes de vanguarda deste século, sobretudo, mediante a estratégia da citação. Originada no seio dos apontamentos cubistas (não se pode esquecer o implemento definitivo obtido nos anos 60 com a arte objetual), uma de suas mais originais e instigantes aplicações parece, sem dúvida, localizar-se nesta prática escritural que poucos implementam tão bem quanto Deleuze. O esquadrinhamento desse princípio pode, por outro lado, proporcionar uma diagnose bem interessante da sensibilidade pós-moderna (que, por seu lado, permitiria a sedimentação de uma visão mais sóbria das perplexidades simbólicas do tempo presente) caracteristicamente atravessada, entre outras coisas, por uma pulverização discursiva, pelo declínio definitivo da representação (com o aparente esfacelamento do megaeixo platonizante da cópia-modelo) e pela anomia lingüística.

Eivada de metatextualidade, a obra de arte pós-moderna demonstra ser, de fato, eminentemente alegórica e submetida, portanto, a uma estruturação de referências cruzadas. Após um ostracismo de quase dois séculos (quando quase foi considerada uma aberração estética), a alegoria voltou a ocupar o centro das atenções. Na opinião de Craig Owens, toda a arte (por que não dizer, a sensibilidade) contemporânea possuiria um incontestável tom alegórico que se manifesta, entre outras coisas, numa opressiva tendência a 'reativações' do passado e da história (bem visível, num primeiro momento, na prática arquitetônica). Em um estratégico ensaio, ele busca avaliar esta tendência emergente e determinar o alcance de seu impacto na teoria e na prática das artes visuais.

Se concordarmos com Owens em que "a alegoria se verifica cada vez que um texto tem o seu duplo num outro" e que "na estrutura alegórica, um texto é ‘lido através’ de outro, por muito fragmentária, intermitente ou caótica que possa ser sua relação: o paradigma da obra alegórica (sendo), pois, o palimpsesto", o que não pensar das ‘pilhagens’ conceituais deleuzianas?

Parece razoável afirmar que a obra deleuziana seria igualmente movida pelos dois impulsos fundamentais da alegoria referidos por Owens: "a convicção do afastamento do passado e o desejo de resgatá-lo para o presente". No que procura desmontar a história da filosofia, perspectivando-a (enunciando por detrás de pontos de vista 'insuspeitos', a presença fossilizada do platonismo), ela se encaixaria como uma luva neste momento vivido pelo Ocidente, desde meados do século passado: o da "irrupção quase obsessiva da memória".

Sob esta ótica, o projeto deleuziano de ‘desnaturalização’ do pensamento tornar-se-ia mais do que inteligível: "Agora a explicitação do ponto de vista permite denunciar a artificialidade do enunciado: o primado passa a pertencer à enunciação, ao ato que intervém, à natureza antinatural da linguagem, à vontade, ao desejo, à liberdade: momento de utopias e vanguardas; momento também da ressaca pós-moderna".

Para um pensador como Deleuze, urge deixar que os mecanismos do objeto falem por si mesmos. Não se deve interpretá-los, mas narrar suas equivalências ‘anatômicas’. O ato interpretativo pressuporia uma amarração de forças, a presença chancelar da intencionalidade e, obviamente, do jogo representacional com o apresamento dos predicados ‘selvagens’ do objeto pelo ramerrão fundacional do sujeito, não sendo nada difícil constatar a amplitude — na ‘carne’ da opus deleuziana — do gesto interventor (notável não apenas em seus livros dedicados ao ‘outro’, mas sobretudo nos trabalhos de produção pessoal). Digo amplitude porque tal fenômeno tem ocorrido não só no campo filosófico (neste âmbito, Deleuze pode ser tranqüilamente apontado como um pioneiro), mas, em geral (ou em especial) no âmbito dos códigos ora (auto)rotulados de ‘pós-modernos’.

A prática deleuziana da montagem indicia — juntamente com a apropriação e a exploração poética do acaso(esta última, especialmente visível nas conexões heterogêneas e na crítica da lógica da interpretação tão recorrentes em seu theatrum) — uma forte influência dadaísta,não se furtando Deleuze em expressar (nem sempre explicitamente), aqui e ali, sua admiração pelas chamadas ‘vanguardas históricas’ — no caso, não só pelo cubismo, como também pelo cubismo e a arte abstrata, triunvirato este que, em minha opinião, efetivamente, vitalizou sua poiésis.

Creio serem, de fato, muito estreitas as analogias19entre os procedimentos poéticos deleuzianos e as manifestações artísticas derivadas desse triunvirato. Em função disso, ao longo de suas leituras, Deleuze se comporta, via de regra, como bem mais do que um ‘simples’ filósofo — se contrapondo àqueles que, renitentemente, o tratam (ou julgam) apenas um filósofo (o que, no caso, tecnicamente, ele é, uma vez ter sempre privilegiado, em sua reflexão, os ‘enredos’ filosóficos) — que se serviria de saberes não-filosóficos para tão-somente ‘fazer’ filosofia.

Por outro lado, também quanto à inserção de seu pensamento no ideário contemporâneo, Deleuze pode ser considerado um nome de destaque na chamada pós-modernidade filosófica (ajeitado como foi, meio a contrapelo, pelos acadêmicos norte-americanos — juntamente com os últimos Foucault, Lyotard e Roland Barthes, Jacques Derrida, Jean Baudrillard, Michel Serres e Paul Virilio — no interior da maleta epistemológica ‘desconstrucionista’ ou ‘pós-estruturalista’ ou simplesmente engavetado no buraco sem fundo da ‘litero-filosofia’ como preferem alguns ‘habermazóides’ daqui e de lá).

Há, sem dúvida, vários traços comuns entre as propostas desses pensadores. A começar por seu ‘nietzschianismo de fundo’ (o que explicaria, a princípio, a simpatia pelo poético — no caso de Derrida, acirrada por seu élan heideggeriano — presente, em maior ou menor grau, em todos eles). No caso específico de Deleuze, a marca dadaísta (na verdade, mais ‘protodadá’ — se é que é possível falar assim — do que qualquer outra coisa) de seus procedimentos de criação, seria um indício de que os que foram assumidos pela arte do pós-guerra (especialmente nos anos 60 e 70, mas também — de outra forma, muito mais sutil, porque escamoteada pelo concurso da alegoria — nos anos 80 e 90) — ainda claramente filiada àquela matriz estética — de forma alguma, deixaram de ser modernos.

Em síntese, a presença ativa de tais procedimentos no pensamento deleuziano — assim como na arte objetual, na arte processual, na arte ambiental, arte conceitual e mesmo nos chamados ‘pós-conceitualismos’ — seriam uma evidência legítima de que — não somente no campo das artes e do pensamento, mas, quero crer, em todos os demais — de fato, não se justifica a enfadonha querela entre ‘antigos’ e ‘modernos’ — atualmente camuflada, pela mídia e pelo mercado (e por amplos setores da crítica), numa querela entre ‘modernos’ e ‘pós-modernos’.

A meu ver, há nos ares muito mais que uma novo agenciamento de sensibilidades. Entre os signos benignos dos tempos atuais (deixemos, por ora, de lado os malignos!), destaca-se o modo sutil pelo qual o pensamento tem lidado consigo mesmo. Creio serem Deleuze e Guattari — em O que é a filosofia? — os que que melhor tangenciaram o nervo da questão. Por outro lado, repito, digo ‘novo’ sem que, a rigor, haja muita novidade no processo. A usinagem da dirupção, amplamente codificada por Nietzsche — sem dúvida, seu grande semeador e difusor — já vinha sendo exercitada, ao longo (e a partir) da segunda metade do século XIX, por vários artistas ainda em pleno seio do chamado pós-romantismo.

Comportando-se como uma instigante ‘interface de saberes’, a usina conceitual deleuziana consegue captar vagidos filosóficos nos textos mais inesperados. Antes de fazê-lo, contudo, ‘extrai’, ‘racha’, ‘recolhe’ o que resulta (como os líquidos que minam) da violência do ato. Ato mítico de esvaziamento e preenchimento na simultaneidade. Trata-se de narrar uma história infantil ou um romance ou, mesmo, de conceber uma tela ou de montar uma seqüência visual apenas com conceitos. "Desviando suas linhas pré-existentes, enriquecendo-as com a invenção de novas imagens mitológicas, de novos modos de ver, sentir e pensar. Da filosofia ao romance e de novo à filosofia. Literatura, arte e ciência não requerem que a filosofia venha provê-las com uma fundação que, a princípio, elas não poderiam prover a si mesmas".

Importa inventar e criar — alucinadamente — numas época em que isso quase se tornou uma urgência orgânica. Importa fugir, a todo custo, do abraço letal da reprodutibilidade-enquanto-lei. "Filosofia e arte existem (e persistem) ao longo uma da outra como distintos meios de invenção".23As iniciativas de determinados artistas (como a de Magritte — já tão brilhantemente esquadrinhada por Foucault),24 de ‘pensar pela imagem’ — processo em que a obra funcionaria como um espaço visual de reflexão — Deleuze contrapõe seus ‘atos de pensamento sem imagem’ inteiramente engajados num amplo projeto de reversão. Assim também fez, entre outros, Marcel Duchamp, com seu deboche ready-made — ao mesmo tempo lente estética e ato messiânico de antinomeação, operador de uma leitura igualmente intersticial, erudita, parida no choque do entretexto.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Buda




Ananda Coomaraswamy
 
Buda afirma que ele "nada dissimula" que ele não estabelece uma distinção entre o interior e o exterior, que "sua mão não está fechada" (Digha-Nikaya(external link) II, 100). Mas a Lei Eterna e o Nirvana são "não-compostos e por este valor transcendente (param'attha) não existem palavras adequadas: (all'alta fantasia qui manco possa, Dante, Paraíso XXXIII, 742) ; isto será objeto da (saddha) do discípulo até que disto ele tenha experiência, até que o conhecimento venha substituir a Fé. "Aquele cujo espírito está abrasado com o desejo do Indizível (anakkliata), esse está liberto de todos os apegos e escravidão, nada contra a corrente (Dhammapada(external link) 218). Os Budas só fazem proclamar a Via" (Dhammapada(external link) 276). Se pode ter uma salvação pela (Suttanipata(external link) 1146), é porque "é a que conduz o melhor ao conhecimento" (Samyutta Nikaya(external link) IV, 298): crede ut intelligas. Quem diz diz autoridade; a autoridade de Buda (mahapadesa) que repousa sobre sua experiência imediata é aquela de suas palavras tais como ele as pronunciou; neste último caso, elas não somente foram corretamente compreendidas, mas ainda verificadas quanto à sua conformidade com os textos canônicos e a regra. Esta dependência da etapa inicial sobre o que ainda não foi "visto" não é exclusivamente budista e não exige uma particular credulidade. A matéria do ensinamento de Buda é sempre o que ele afirma ter visto e verificado pessoalmente: e isso, ele assegura a seus discípulos que eles também o poderão ver e verificar se eles o seguirem na sua viagem com Brahma. "Os Budas apenas indicam o Caminho; cabe a vós fatigar-se com a tarefa" (Dhammapada(external link) 276) ; o Fim permanece indizível (Dhammapada(external link) 218); ele não possui sinal (Samyutta Nikaya(external link) I, 188, Suttanipata(external link) 342); é uma gnose que não é comunicável (Anguttara-Nikaya(external link) III, 444) ; aqueles que só confiam no que pode ser dito estão ainda sob este jugo da morte (Samyutta Nikaya(external link) I, 11).
 
Quando se discute a questão da Fé, esquece-se demasiadamente que nosso conhecimento das "coisas", mesmo as que regem nossos atos mundanos, está na maior parte baseado na autoridade. Pode-se dizer que a maioria de nossas atividades diárias cessaria se deixássemos de acreditar nas palavras daqueles que viram o que ainda não vimos, mas que poderíamos ver fazendo o que eles fizeram, indo onde eles foram: do mesmo modo as atividades do neófito budista terminariam se ele não "acreditasse" nesta finalidade que ele ainda não atingiu. De fato, ele acredita que Buda lhe disse o que é verdadeiro, e age em consequência (Digha-Nikaya(external link) II, 93). Somente o Homem Perfeito é "sem fé" pois nele o conhecimento do Não-feito substituiu a Fé (Dhammapada(external link) 97) e esta não mais lhe é útil. Para o budista, o Dhamma, a Lex Aeterna, sinônimo da Verdade 1 (Samyutta Nikaya(external link) I, 169) é a autoridade suprema, o "Rei dos reis" (Anguttara-Nikaya(external link) I, 109; m, 149). É com esta última autoridade, fora do tempo e temporal ao mesmo tempo, transcendente e imanente, que Buda se identifica, identifica a Ipseidade na qual ele se refugiou: "Aquele que vê o Dhamma me vê, aquele que me vê, vê o Dhamma" (Samyutta Nikaya(external link) III, 120; it. qi; Milindapanha(external link) 73). Entre as escrituras budistas, uma das mais grandiosas é intitulada o Dhammapada(external link): "as Marcas da Lei"; é um itinerário, um guia para aqueles que "marcham na Via da Lei" (dhammacariyam caranti), a qual é também a "Via de Brahma", "a viagem com Brahma" (brahmacariyam), "a antiga estrada me seguiram os Todo-Despertos de outrora". Os termos budistas para dizer a "vereda" (magga) e a "busca" (gavesana) 2 da qual a Ipseidade é o objeto (Vinaya-Pitaka(external link) I, 23; Visuddhimagga(external link). 393), indicam implicitamente que é necessário seguir uma pista, mas marcas 3, Mas estas pistas terminam quando a margem do Grande Mar é atingida. O que era até então um discípulo (sekho) é daí por diante um perito (asekho); não está mais sob a direção de um preceptor (Gal. III, 25). A Via prescrita é a do aniquilamento do eu, da virtude, da contemplação; é necessário caminhar sozinho com Brahma; mas uma vez atingido o fim desta longa estrada quer seja neste mundo ou no outro, nada mais resta que o "mergulho" no Imortal, no Nirvana {amat'ogadham, nibban'ogadham), neste oceano insondável que é ao mesmo tempo a imagem do Nirvana, do Dhama e do próprio Buda (Majjhima-Nikaya(external link) I, 488, 494; Samyutta Nikaya(external link) IV, 179, 180; v, 47; Milindapanha 319, 346). É uma velha comparação, comum aos Upanixades e ao budismo: quando os rios atingem o mar, perdem nome e forma, só se falar do "mar".
 
"A gota de orvalho desliza para o mar resplandecente". Sim, mas a fórmula não é exclusivamente budista: nós a encontramos em Rumi (Nicholson, Diwan, XII, XV; Mathnawi, passim), em Dante (sua voluntate..:. è quel maré ai qual tutto si muove (Par. III, 84), em Mestre Eckhart (also sich wandelte der Tropfe in das Meer... "o mar da insondável natureza de Deus: mergulha dentro, é o afogamento"), em Angelus Silesius (wenn Du das Tröpflein weisz im grossen Meere nennen, denn weisz Du meine Seel'im grossen Gott erkennen, Christl. Wandersmann, II 25) e também na China, onde o Tao é o oceano ao qual tudo regressa (Tao-te King, XXXII). De todos os que o atingem pode-se somente dizer que sua vida é oculta, enigmática. Buda, que cada um o pode ver presente em carne e osso é desde agora "impossível de atingir" (anupalabhyamano); não é mais "descobrível" (ananu vejjo); um ser assim "mergulhado em si mesmo" não poderia mais ser relacionado a qualquer categoria (sankham na upeti (Suttanipata(external link), 1074)). Pois, "não há ninguém, que me vendo sob uma forma qualquer, possa me ver"; "nome e aspecto não me pertencem", "Somente aquele que vê a Lei Eterna, vê Buda, hoje mesmo tão efetivamente que quando o Mestre estava ainda revestido com sua personalidade (persona, máscara, disfarce) que, no momento de sua morte, ele fez estalar como uma cota.de malhas" (Anguttara-Nikaya(external link) IV. 312).
 
Acabamos de deixar perceber a identidade do Mar dantesco com o Mar budista, parecendo introduzir uma significação deísta nas doutrinas pretensamente ateias do budismo; bastar-nos-á fazer notar que não existe uma verdadeira distinção a estabelecer entre a imutável Vontade de Deus e a Lex Aeterna, sua Justiça de Sabedoria, esta natureza que é a sua Essência, contra a qual não se poderia agir sem negar a ele mesmo..
 
 



NOTAS






1. "Uma lei superior a nossos espíritos, chamada Verdade", Santo Agostinho, De Vera Relia. XXX, Cf. Santo Thomás de Aquino, Sum. Theol. II-I, 91-2.
2. Cf. a história de Gavesin, p. 69.
3. Como em Platão, ikneuon, passim; ou em Mestre Eckhart, a alma seguindo a pista de sua presa, o Crito.
4. No ritual védico, o Brahma é o mais sábio dos quatro oficiantes brâmanes, sua autoridade em todas as questões duvidosas; deduz-se que Brahma é o título mais respeitável que um brâmane possa dar a outro quando a ele se dirige.
5. Budh'atta buddho, Visuddhimagga(external link) 209; ef. Brhadaranyaka Upanixade, IV, 4, 13, pratibunddho atma. O "Eu desperto" será o "Eu que fui submetido à mutação" (bhavit'atta, passim), isto é, o "Eu não nascido (ajata'atta) que não envelhece nem morre" (Dhammmapada I, 228; cf. Bhagavad Gita II, 20).





Última modificação em 24 de Junho de 2010 17:52:58 UTC